Colonoscopia é um exame seguro? Entenda os riscos e por que ela continua sendo fundamental na prevenção do câncer de intestino
Uma notícia muito triste envolvendo o falecimento de uma paciente após a realização de uma colonoscopia trouxe preocupação e muitas dúvidas sobre a segurança do exame.
Antes de qualquer consideração médica, deixo minha solidariedade aos familiares e amigos. É especialmente doloroso pensar que essa paciente estava realizando um exame com o objetivo de cuidar da própria saúde.
Diante de acontecimentos como esse, é natural surgir a pergunta: afinal, a colonoscopia é um exame seguro?
Sim. A colonoscopia é considerada um procedimento seguro e é uma das principais ferramentas que temos para diagnosticar e, principalmente, prevenir o câncer colorretal. Entretanto, como qualquer procedimento médico invasivo, ela não é completamente isenta de riscos.
**Quais são os riscos da colonoscopia?**
As principais complicações relacionadas diretamente ao procedimento são o sangramento e a perfuração intestinal. Além delas, existem os riscos relacionados à sedação ou anestesia, que variam conforme as condições clínicas de cada paciente.
Felizmente, complicações graves são raras.
Uma revisão da American Society for Gastrointestinal Endoscopy (ASGE) aponta, para colonoscopias de rastreamento, taxas estimadas de aproximadamente:
* Perfuração: 0,4 caso a cada 1.000 colonoscopias, ou cerca de 1 caso a cada 2.500 exames;
* Sangramento importante: 0,8 caso a cada 1.000 colonoscopias, ou aproximadamente 1 caso a cada 1.250 exames.
Esses números não são iguais para todos os pacientes.
O risco pode aumentar conforme a idade, condições clínicas, características do intestino e, principalmente, quando é necessário realizar algum procedimento durante a colonoscopia, como a retirada de pólipos, ressecção de lesões maiores, dilatações ou cauterizações.
Por isso, é importante diferenciar uma colonoscopia exclusivamente diagnóstica de uma colonoscopia terapêutica.
**O que acontece se houver uma perfuração?**
Uma perfuração intestinal é uma complicação séria, mas sua ocorrência não significa necessariamente que o paciente precisará de uma cirurgia.
A evolução da endoscopia também trouxe novas possibilidades para o tratamento das próprias complicações.
Dependendo do tamanho e da localização da perfuração, do momento em que ela é identificada e das condições clínicas do paciente, pode ser possível realizar o fechamento endoscópico da lesão com dispositivos como clips.
Em outras situações, pode ser indicada internação, jejum, antibioticoterapia e acompanhamento clínico.
Quando há contaminação importante da cavidade abdominal, instabilidade clínica ou impossibilidade de tratamento conservador ou endoscópico, pode ser necessária uma cirurgia.
Portanto, cada situação precisa ser avaliada individualmente.
**E o sangramento?**
O sangramento está relacionado principalmente aos procedimentos realizados durante a colonoscopia, especialmente à retirada de pólipos.
Muitos episódios são pequenos e autolimitados. Quando é necessário tratamento, existem diversas técnicas endoscópicas para controlar o sangramento, como aplicação de clips, métodos térmicos e outras formas de hemostasia.
**Se existem riscos, por que fazemos colonoscopia?**
Porque precisamos comparar o risco do procedimento com o benefício que ele pode proporcionar.
A colonoscopia possui uma característica particularmente importante: ela não serve apenas para encontrar um câncer. Ela pode evitar que ele apareça.
Grande parte dos cânceres colorretais se desenvolve a partir de lesões precursoras, como os adenomas. Durante a colonoscopia, essas lesões podem ser identificadas e retiradas antes de sua transformação em câncer.
Um dos estudos clássicos sobre o assunto, o National Polyp Study, acompanhou pacientes submetidos à retirada de adenomas por colonoscopia por uma mediana de quase 16 anos. A mortalidade por câncer colorretal foi aproximadamente 53% menor do que a esperada na população de referência.
Outros grandes estudos observacionais também encontraram associação entre a realização de colonoscopia de rastreamento e redução importante da mortalidade por câncer colorretal.
**Então todos deveriam fazer colonoscopia?**
Não necessariamente.
E talvez essa seja uma das reflexões mais importantes diante de acontecimentos como esse.
Nenhum exame deve ser solicitado indiscriminadamente.
Na medicina, antes de indicar qualquer procedimento, devemos avaliar o benefício esperado, os riscos, a idade, os antecedentes pessoais e familiares, os sintomas, as doenças associadas e, quando estamos falando de rastreamento, as recomendações existentes para aquela população.
Existem inclusive outros métodos de rastreamento do câncer colorretal em determinados contextos. A escolha da melhor estratégia deve ser individualizada.
O fato de um exame ser seguro não significa que ele deva ser realizado sem indicação.
Da mesma forma, a existência de uma complicação rara não significa que devemos deixar de realizar um exame quando seus benefícios são maiores que seus riscos.
Uma complicação não torna a colonoscopia um exame inseguro.
Quando acontece uma complicação grave, principalmente quando envolve a perda de uma vida, os números deixam de parecer importantes. Para aquela pessoa e para aquela família, o evento deixou de ser uma estatística.
Isso precisa ser reconhecido e respeitado.
Ao mesmo tempo, um evento trágico e raro não deve gerar medo a ponto de fazer com que milhares de pessoas deixem de realizar um exame adequadamente indicado.
A própria ASGE classifica a colonoscopia, de maneira geral, como um procedimento de baixo risco, embora reconheça que eventos adversos graves podem ocorrer.
A mensagem que devemos levar não é “colonoscopia não tem riscos”.
Ela tem.
A mensagem correta é: a colonoscopia é um exame seguro, com baixa incidência de complicações graves e grandes benefícios quando realizada na pessoa certa, no momento certo e com indicação adequada.
Toda intervenção médica exige uma análise individual entre riscos e benefícios.
E é justamente essa análise que transforma a realização de um exame em uma decisão médica responsável.
Mais uma vez, deixo meus sentimentos e minha solidariedade aos familiares e amigos da paciente.
Que um acontecimento tão triste não seja motivo para abandonarmos a prevenção, mas para reforçarmos a importância da informação, da indicação médica criteriosa e da segurança em todos os procedimentos.
**Referências**
Kothari ST, Huang RJ, Shaukat A, et al. ASGE review of adverse events in colonoscopy. Gastrointestinal Endoscopy. 2019;90(6):863-876.
Zauber AG, Winawer SJ, O’Brien MJ, et al. Colonoscopic Polypectomy and Long-Term Prevention of Colorectal-Cancer Deaths. New England Journal of Medicine. 2012;366:687-696.
Nishihara R, Wu K, Lochhead P, et al. Long-Term Colorectal-Cancer Incidence and Mortality after Lower Endoscopy. New England Journal of Medicine. 2013;369:1095-1105.
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